Observatório de cinema - Casa das Artes de Vila nova de Famalicão

Histórias do Cinema

Kenji Mizoguchi

O primeiro filme japonês que Paulo Rocha terá visto não foi de Kenji Mizoguchi, antes Jigokumon (Amores de Samurai, 1953) de Teinosuke Kinugasa numa sessão de ante-estreia no final de 1955, no Porto. O jovem Paulo Rocha, defronte de tão exóticas imagens, terá iniciado logo aí o seu fascínio pela Ásia, em particular pelo território do Japão. No entanto, será só em Paris, enquanto estuda no IDHEC, que Rocha descobrirá a obra de Mizoguchi – quando este acaba de se tornar conhecida no ocidente após os três galardões no Festival de Cinema de Veneza em 1952, 1953 e 1954 (respectivamente por A Vida de O’Haru, Contos da Lua Vaga, O Intendente Sansho). “Fiquei siderado” escreveu o realizador. E já em Lisboa, no famoso Vá-vá, enquanto se discutiam revoltas estudantis, Godard, Truffaut e Resnais, para Paulo Rocha só interessavam os melodramas do cineasta japonês. Após onze anos a viver no Japão e de ter aprendido a língua fluentemente (foi adido cultural da Embaixada Portuguesa e trabalhou dentro do sistema de estúdios japoneses – coisa inédita para um ocidental) Rocha regressou a Portugal, acabando por integrar o corpo docente da recém criada ESTC. Nela transmitiu esse seu gosto pela cultura japonesa, e em particular pela obra de Mizoguchi. Foram seus alunos vários dos cineastas que hoje preenchem o panteão dos autores consagrados. Entre eles Pedro Costa e João Pedro Rodrigues que, de forma mais marcada, vêm mostrando de que modo esses longínquos ensinamentos da sua juventude ainda se fazem sentir no seu trabalho. Se a influência de Mizoguchi é mais do que evidente nos filmes que rodou no Japão – nomeadamente na utilização do plano-sequência – ela está também presente, de forma muito inocente, nas suas duas primeiras longas-metragens, em especial na segunda, Mudar de Vida (1966). Uma influência que se manifesta mais na atmosfera social e pictórica do filme do que nalgum exercício de citação. E claro, no retrato das mulheres. E aqui Rocha apresenta Isabel Ruth, a sua Machiko Kyo (como lhe chamou Bénard da Costa). Esta é uma oportunidade de ver alguns dos títulos mais marcantes do cineasta nipónico juntamente com as obras dos “imberbes verdes anos” do mais “mizoguchiano” dos cineastas japoneses. (RVL)

Uma incursão de Mizoguchi pelo Japão ancestral, com uma história de amor adúltero que termina com os amantes crucificados. Como habitualmente em Mizoguchi, a temática social (a repressão imposta pela tradição e pelos costumes) volve-se em metafísica (a morte como derradeira comunhão entre os amantes), numa das obras-primas absolutas do cineasta japonês. Um dos vértices supremos da grande herança trágica de que este filme se postula como um dos mais universais e mais absolutos herdeiros.

  • de Kenji Mizoguchi
  • O INTENDENTE SANSHO

  • 14 de outubro (14h45, PA) M/12
  • Sansho Dayu (Japão, ficção, 1954, 120 min)
  • comentado por Carlos Natálio
  • no imdb | por Carlos Natálio

No Japão medieval, um governador permissivo é mandado para o exílio. A mulher e os dois filhos tentam juntar-se-lhe, mas são cruelmente separados. Enquanto a mãe é forçada a prostituir-se, os filhos, Anju e Zushio, são vendidos como escravos ao tirano Sansho e crescem submetidos ao sofrimento e à opressão. Anos mais tarde, Zushio é um homem duro, mas a irmã, Anju, não esqueceu a história de ambos. O argumentista Yoshikata Yoda explicou que a intenção era ''elevar uma lenda popular ao nível de um drama social'', o que Mizoguchi conseguiu elevando à elipse suprema uma e outra dessas origens. Um conto de fadas como origem da tragédia. Um dos filmes mais densos e misteriosos de Mizoguchi. Festival de Veneza – Leão de Prata, Melhor Realizador.

Após o fim do serviço militar em África, Adelino regressa ao Furadouro, a vila piscatória onde nasceu. Lá chegado, descobre que Júlia, a rapariga que toda a vida amou, é hoje casada com Raimundo, o seu irmão. Triste e desiludido com a notícia da traição, Adelino sai à procura de trabalho. É assim que conhece Albertina, uma rapariga de espírito livre e fama de libertina que apenas deseja fugir daquele lugar. Segunda longa-metragem de Paulo Rocha (1935-2012), "Mudar de Vida" conta com assistência de realização de António Campos e diálogos de António Reis. O filme foi realizado em 1966. A cópia transcreve em resolução 2K um restauro concluído analogicamente no laboratório da Cinemateca Portuguesa, com aprovação do realizador e sob a supervisão de Pedro Costa.

  • de João Pedro Rodrigues
  • ALLEGORIA DELLA PRUDENZA

  • 15 de outubro (18h30, PA) M/12
  • Allegoria Della Prudenza (Portugal/Japão, documentário, 2013, 2 min)
  • página de João Pedro Rodrigues

Hécate, um corpo e três cabeças: Ticiano, Mizoguchi e Paulo Rocha. O vento leva-nos dos dois túmulos de Mizoguchi em Tóquio e Quioto até Ovar, onde repousam as cinzas de Rocha.

  • de Kenji Mizoguchi
  • CONTOS DA LUA VAGA

  • 16 de outubro (21h45, PA) M/12
  • Ugetsu Monogatari (Japão, ficção, 1953, 95 min)
  • comentado por Paulo Cunha
  • no imdb | texto de Luís Mendonça

Os Contos da Lua Vaga, uma história de fantasmas sem igual, é uma das suas maiores obras. Partindo de histórias de Akinari Ueda and Guy de Maupassant, trata-se de um assombroso conto de amor e perda, que mistura de forma única o real e o que nos transcende, e de um dos mais belos filmes alguma fez feitos. “Contos da Lua Vaga” não é só o mais célebre título da obra de Mizoguchi, mas provavelmente também o mais complexo e o preferido de inúmeros cinéfilos, sejam eles "mizoguchianos" ou não. Festival de Veneza – Leão de Prata e Prémio Pasinetti

  • de Pedro Costa
  • O SANGUE

  • 17 de outubro (10h00, PA) M/12
  • O Sangue (Portugal, ficção, 1989, 95 min) CinEd (3.º ciclo/Secundário)
  • comentado por Teresa Garcia
  • no imdb | texto de Mário Jorge Torres

Uma terra de província. Natal, fim de ano. Dois irmãos. Um tem 17 anos, outro 10. Eles juram guardar um segredo. Que tem a ver com as frequentes ausências do pai. E que só uma rapariga partilha com o irmão mais velho. É que desta vez o pai não se ausentou apenas como das outras. Que se passou? Só Vicente e Clara o sabem. Segredos, promessas, separações, esperas. À força de quererem sobreviver ao seu segredo os dois irmãos perdem-se. Talvez seja sobre a noite da infância, este filme. Primeira obra de Pedro Costa, um filme marcado por ecos nocturnos e "fabulosos", como o da viagem pelo rio dos dois irmãos de "Night of the Hunter" de Charles Laughton.

  • de Ricardo Vieira Lisboa
  • MIZOGUCHI & ROCHA

  • 20 de outubro (16h30, café-concerto)

É comum dizer-se que Mudar de Vida (1966) de Paulo Rocha é o filme mais mizoguchiano do cinema português, mas o que quer isso de facto dizer? Nesta conversa proponho uma análise da influência do cinema de Kenji Mizoguchi no cinema de Paulo Rocha, segundo as palavras do próprio Rocha. Em particular a influência no filme de 1966, que antecedeu a sua temporada de 11 anos no Japão como adido cultural da Embaixada Portuguesa — intervalo no qual realizou as suas duas primeiras obras propriamente japonesas, A Ilha dos Amores (1982) e A Ilha de Moraes (1984). Esta será então uma conversa que girará em torno de dois grandes cineastas, um português e outro japonês, de duas gerações muito diferente, onde o primeiro tomou o segundo como mestre incontornável. Será menos sobre a influência directa do cinema de Kenji Mizoguchi no cinema de Paulo Rocha e mais sobre o modo como Rocha olhou a obra do realizador nipónico e dela retirou ensinamentos profundos sobre o cinema, e também sobre a vida. (RVL)

  • de Kenji Mizoguchi
  • A RUA DA VERGONHA

  • 20 de outubro (18h30, PA) M/12
  • Akasen Chitai (Japão, ficção, 1955, 90 min)
  • comentado por Mário Macedo
  • no imdb | por Inês Lourenço

A vida de cinco prostitutas que trabalham num bordel na famosa e histórica zona de prostituição de Tóquio, Yoshiwara, e a forma como os seus sonhos e ambições são constantemente destruídos pela realidade social e económica que as rodeia. A Rua da Vergonha foi o último filme de Mizoguchi.