Observatório de cinema - Casa das Artes de Vila nova de Famalicão

Cinema Mundo

América Latina

Esta pequena mostra de seis filmes procura refletir a criatividade e a diversidade dos cinemas latinoamericanos, independentemente das convulsões políticas, económicas e sociais da história recente dessa região. Os seus cineastas revelam uma rara capacidade de absorção e integração das referidas convulsões e uma genuína vontade de questionamento e reinterpretação dos eventos que têm afetado um mundo que partilha muito mais do que duas línguas comuns.

Por razões de espaço, optamos por nos concentrar no universo de língua espanhola, já de si suficientemente rico e vasto para exigir múltiplos olhares. Espera-se que os nomes invocados e as obras que figuram no programa permitam detetar um conjunto coerente, que justifique que se fale de um cinema latino-americano e que ajude a sedimentar um público para ele (CNo).

  • de Kiro Russo
  • VIEJO CALAVERA

  • 13 de outubro (23h00, PA) M/12
  • Viejo Calavera (Bolívia, documentário/ficção, 2017, 80 min)
  • no imdb | página oficial

Elder fica órfão, mas isso não parece incomodá-lo muito. Vai viver com a avó, e o padrinho arranja-lhe emprego na mina. Mas Elder prefere vaguear, embriagado, pelos becos escuros da cidade. Este comportamento coloca-o em rota de colisão com a vida. Viejo Calavera é a primeira longa metragem de Kiro Russo, que venceu por duas vezes o grande prémio de curta metragem no IndieLisboa, com Juku e Nueva Vida, em 2012 e 2016. O seu olhar é dono de uma enorme força documental e, neste filme, retrata a dureza do trabalho nas minas de Huanuni, na Bolívia.

  • de Carlos Machado Quintela
  • LA OBRA DEL SIGLO

  • 14 de outubro (21h45, PA) M/12
  • La obra del siglo (Cuba/Argentina/França/Suíça, ficção, 2016, 100 min)
  • no imdb | página oficial

No meio de uma praga de mosquitos, Leonardo tem de enfrentar a ruptura de uma relação e muda-se para a casa onde residem o avô, que luta contra tudo e contra todos, e o pai, que vive com a melancolia do que não chegou a fazer. Numa cidade que foi outrora o centro do grande projeto nuclear soviético nas Caraíbas, os escassos restos deste mundo pesam sobre estes três homens solitários que, contrariamente ao peixe-mascote Benjamín, ainda têm de aprender a respirar debaixo de água. Premiado nos festivais de Roterdão (Tiger Award), Havana e New Horizons (Wroclaw).

Sole e Ana fizeram um pacto: nunca trocarão as suas bicicletas de corrida por um automóvel poluente. Os seus amigos Frank, Gato e Lou são também inseparáveis das suas BMX: nada é mais importante do que as acrobacias e as corridas noturnas pelas ruas da cidade. No porta-bagagens de um dos velhos carros estacionados no jardim da avó de Sole, as raparigas fazem uma descoberta macabra. Os acontecimentos que se sucedem põem a respectiva amizade à prova. Hernández Cordón traça mais um dos seus retratos geracionais caleidoscópicos, combinando elementos das próprias vidas dos jovens atores com a sua fértil imaginação. Selecionado para os festivais de Roterdão e BAFICI.

  • de Jorge Thielen Armand
  • LA SOLEDAD

  • 18 de outubro (18h30, PA) M/12
  • La Soledad (Venezuela/Canadá/Itália, documentário/ficção, 2016, 89 min)
  • no imdb | página oficial

Pode a complexa realidade atual da Venezuela filtrar-se numa fábula de proprietários legítimos e usurpadores de uma velha casa familiar? Inspirado em velhos arquivos e nas experiências vividas durante a sua infância, o realizador Jorge Thielen Armand regressa à casa dos seus bisavós para ali rodar um trabalho entre o documental e a ficção. A glória e o esplendor da mansão foram carcomidos pelo progressivo abandono da sua família e a casa converteu-se no lar de novos ocupantes: Rosina, outrora empregada dos seus avós, faz agora de guardiã daquela casa que ameaça a derrocada a qualquer momento e que serve de refúgio para a família do neto José. Mas a decisão de demolir a casa, tomada de forma unânime pelos “verdadeiros” herdeiros, é iminente e os “usurpadores” vêem-se obrigados a procurar um novo domicílio. Premiado nos festivais de Miami, Durban, Rhode Island, Atlanta e Nashville.

  • de Natalia Almada
  • TODO LO DEMÁS

  • 19 de outubro (18h30, PA) M/12
  • Todo lo demás (México, ficção, 2016, 98 min)
  • no imdb | página oficial

D. Flor é uma burocrata. Trabalha há mais de 35 anos numa repartição pública da Cidade do México, onde atende gente de todas as esferas da sociedade mexicana: ricos, pobres, instruídos e analfabetos, todos com igual profissionalismo, a que alguns chamariam excesso de rigor e frieza. Um dia, a monotonia do seu trabalho é abalada e a reviravolta que a perturbação provoca na sua vida leva-a a procurar consolo nas águas da piscina de um ginásio. O medo, porém, paralisa-a até que o gesto compassivo de uma mulher a ressuscita. Uma interrogação sobre a vida interior de D. Flor no momento em que desperta do seu torpor burocrático e anseia tornar-se visível de novo, esta história é uma cativante reflexão sobre a solidão. Premiado nos festivais de Morelia (melhor atriz), San Francisco e Palm Springs.

  • de Lucretia Martel
  • ZAMA

  • 20 de outubro (21h30, PA) M/14
  • Zama (Argentina /Espanha /Portugal /Líbano /EUA /México /Brasil, ficção, 2017, 115 min.)
  • no imdb | entrevista a Lucretia Martel

Final do século XVIII. Don Diego de Zama é um oficial da coroa espanhola enviado para a cidade de Assunção, no Paraguai, para cobrir um posto fronteiriço. Os anos vão passando e ele sem realizar o seu maior objectivo: ser transferido novamente para Buenos Aires (Argentina), onde espera poder regressar para a família. Farto de esperar por uma oportunidade que teima em não chegar, junta-se a um grupo de homens cuja missão é capturar um criminoso... Estreado mundialmente no Festival de Veneza, um filme com assinatura da realizadora argentina Lucrecia Martel ("O Pântano", "A Rapariga Santa", "A Mulher Sem Cabeça") que se baseia no romance homónimo escrito, em 1956, por Antonio di Benedetto.